Você conhece a sequência. Nariz entupido, muita secreção pelo nariz ou que escorre na garganta, pressão no rosto, dor de cabeça que piora ao abaixar. Vai ao pronto atendimento, sai com antibiótico e, em alguns dias, melhora. Semanas depois, tudo volta. Mais um ciclo, às vezes com um corticoide junto. Em um ano, três, quatro, cinco caixas de remédio, e a sensação de que o nariz nunca fica realmente bom.
Esse padrão tem nome, tem causa e tem tratamento. Mas o tratamento raramente é mais um antibiótico. Este artigo explica o que é sinusite crônica, por que o remédio resolve a crise e não a doença, quais exames mostram o que está acontecendo e em que situações a cirurgia endoscópica passa a ser a melhor saída.
O que diferencia a sinusite crônica da sinusite comum
Os seios da face são cavidades cheias de ar ao redor do nariz, revestidas pela mesma mucosa que reveste a cavidade nasal. Em condições normais, eles produzem uma fina camada de muco que é continuamente varrida para o nariz por aberturas chamadas óstios. Quando essas aberturas fecham, por inflamação, infecção ou alguma alteração anatômica, o muco se acumula, perde a ventilação e vira meio de cultura para bactérias. Isso é a sinusite, ou rinossinusite, já que o nariz quase sempre participa.
A diferença entre as formas da doença está no tempo e na repetição:
- Sinusite aguda: dura menos de 4 semanas. É a mais comum, quase sempre começa como um resfriado e, na maioria das vezes, é viral.
- Sinusite aguda recorrente: 4 ou mais episódios agudos em um ano, com melhora completa entre eles.
- Sinusite crônica: sintomas que persistem por mais de 12 semanas, com pelo menos dois dos quatro sinais principais presentes: obstrução nasal, secreção pelo nariz ou escorrendo pela garganta, dor ou pressão na face e redução do olfato.
A sinusite crônica pode ocorrer com ou sem pólipos nasais. E, embora pareça uma infecção que não acaba, ela é essencialmente uma doença inflamatória da mucosa, na qual a infecção é consequência, não causa. É por isso que tratá-la como uma sequência de infecções isoladas, uma caixa de antibiótico por vez, costuma dar errado.
Por que o antibiótico melhora e a sinusite volta
O antibiótico faz o que promete: controla as bactérias que se multiplicaram na secreção parada. O problema é que ele não age sobre nenhum dos motivos pelos quais a secreção parou. Enquanto o fator de base permanece, o seio da face volta a acumular muco e a infecção se repete.
Os fatores mais frequentes por trás de uma sinusite que não resolve são:
- Inflamação persistente da mucosa, muitas vezes ligada à rinite. A mucosa inchada estreita ou fecha os óstios. Quem tem rinite mal controlada tem sinusite com mais facilidade, e é comum que a sinusite “crônica” seja, na origem, uma rinite que nunca foi tratada de forma adequada.
- Pólipos nasais. Degenerações benignas e gelatinosas da mucosa que ocupam espaço dentro do nariz e dos seios da face e impedem a drenagem. A polipose nasal é uma das formas de sinusite crônica e costuma vir acompanhada de perda importante do olfato.
- Alterações anatômicas. Um desvio de septo acentuado ou cornetos muito aumentados reduzem o espaço por onde o nariz respira e drena, favorecendo o acúmulo. Nesses casos, a sinusite é só um dos sintomas de um nariz que não funciona bem como um todo.
- Causa dentária. Os dentes superiores ficam encostados no seio maxilar. Uma raiz infectada, um implante ou uma extração podem contaminar o seio e produzir uma sinusite odontogênica, tipicamente de um lado só, que não cede enquanto o dente não for tratado.
- Nas crianças, a adenoide. A adenoide aumentada funciona como reservatório de bactérias, um biofilme, e mantém a criança em ciclos de secreção, otites e sinusites de repetição. Nesses casos, a investigação passa pela avaliação da adenoide, e não por mais um antibiótico.
- Causas menos comuns, que precisam ser lembradas justamente porque não respondem ao tratamento habitual: infecção por fungos, alterações do movimento dos cílios da mucosa e doenças inflamatórias sistêmicas.
Há ainda um ponto que raramente é dito ao paciente no pronto atendimento: a maior parte das sinusites agudas é viral e não precisa de antibiótico. O remédio costuma ser indicado quando os sintomas pioram depois de alguns dias de melhora ou quando persistem além de 10 dias, sinais de que a infecção pode ter se tornado bacteriana. Usar antibiótico em toda crise não acelera a melhora e, ao longo dos anos, seleciona bactérias resistentes. O mesmo vale para o corticoide oral tomado por conta própria a cada episódio: alivia por alguns dias e esconde o quadro.
Os sinais de que não é mais caso de pronto atendimento
Alguns padrões indicam que a sinusite deixou de ser um evento isolado e passou a ser um problema do funcionamento do nariz. Vale procurar o otorrinolaringologista quando:
- os episódios se repetem quatro ou mais vezes no ano, ou os sintomas não desaparecem completamente entre eles;
- o nariz fica entupido o tempo todo, e não só durante a crise;
- há secreção escorrendo pela garganta de forma contínua, pigarro e tosse, principalmente ao deitar;
- o olfato diminuiu ou sumiu, e os alimentos perderam o sabor;
- a dor ou pressão no rosto é sempre do mesmo lado, ou vem com secreção de uma narina só;
- houve tratamento dentário recente do lado em que a sinusite se repete;
- a criança vive com o nariz escorrendo, respira pela boca, ronca e acumula otites.
Um alerta no sentido contrário também é importante. Dor de cabeça na testa, sozinha, sem obstrução nem secreção, na maioria das vezes não é sinusite. Enxaqueca e cefaleia tensional são confundidas com sinusite com frequência e tratadas com antibiótico sem necessidade. Na sinusite verdadeira, a dor facial vem acompanhada dos outros sinais nasais.
Como o otorrino descobre a causa
A investigação da sinusite crônica tem três etapas, e a ordem importa.
A conversa e o exame físico. Há quanto tempo os sintomas existem, com que frequência voltam, quais remédios foram usados e por quanto tempo, se há rinite ou alergia, se há asma, se houve tratamento dentário, se o problema é de um lado ou dos dois. A história de uma sinusite crônica já aponta muitas vezes para a causa antes de qualquer exame.
A endoscopia nasal. Feita no próprio consultório, com uma ótica fina introduzida pela narina, é o exame que mostra o que o exame externo não alcança: a mucosa inchada, a secreção saindo da região dos seios da face, pólipos, o desvio do septo, o tamanho dos cornetos e, nas crianças, a adenoide. É a endoscopia que transforma “sinusite de repetição” em um diagnóstico com causa.
A tomografia dos seios da face. Complementa a endoscopia mostrando o que acontece dentro das cavidades: quais seios estão comprometidos, em que extensão, se há causa dentária ou fúngica e como é a anatomia que será preciso respeitar em uma eventual cirurgia. É pedida de rotina quando a cirurgia está em avaliação, porque é a tomografia que orienta o planejamento. Em geral, o exame é mais útil quando feito fora da crise aguda, depois de um período de tratamento, para que mostre a doença de base e não apenas a infecção do momento.
O tratamento clínico bem feito, antes de falar em cirurgia
Grande parte dos pacientes com sinusite crônica nunca fez um tratamento clínico completo. Fez muitos tratamentos de crise. São coisas diferentes.
O tratamento da sinusite crônica é dirigido à causa e tem como base medicação tópica nasal de uso contínuo, que age na inflamação da mucosa, e lavagem nasal com soro em volume, que remove a secreção e leva o medicamento até onde ele precisa chegar. Quando há rinite ou alergia, elas são tratadas junto, e esse controle costuma ser a peça que faltava. Quando há causa dentária, o dentista entra no tratamento. Quando há pólipos, a medicação tópica pode reduzi-los nos casos de menor extensão. O antibiótico, nesse contexto, deixa de ser a rotina e passa a ser usado em situações específicas.
Esse tratamento precisa de tempo para ser avaliado, e o tempo varia de caso a caso, normalmente relacionado ao fator causal. Ele é conduzido pelo otorrinolaringologista, que examina o nariz a cada retorno e enxerga, pela endoscopia, se a mucosa está respondendo. O alergista participa nos casos de rinite de difícil controle, quando há indicação de imunoterapia ou quando existe asma ou dermatite atópica associadas.
Quando a cirurgia passa a ser a melhor opção
A cirurgia dos seios da face é indicada quando o tratamento clínico, feito de forma correta e por tempo suficiente, não devolve a ventilação e a drenagem das cavidades. Isso acontece, em geral, em quatro situações:
- Sinusite crônica que não responde ao tratamento clínico, com sintomas persistentes e a tomografia confirmando os seios comprometidos.
- Pólipos que obstruem o nariz e os seios da face e não regridem com a medicação.
- Alteração anatômica que impede a drenagem, como desvio de septo e cornetos aumentados. Nesses casos, a correção do septo e dos cornetos é feita no mesmo ato, porque tratar só a sinusite deixaria a causa no lugar.
- Causas específicas que só se resolvem com a abertura do seio: bola fúngica, sinusite odontogênica com o seio maxilar inteiro comprometido, lesões que precisam ser removidas e analisadas.
Um esclarecimento que evita frustração: melhorar com o tratamento clínico não descarta a cirurgia. Há pacientes que controlam a doença com medicação contínua e preferem seguir assim. Há outros que, controlados, optam por operar para resolver o problema de forma mais definitiva e depender menos de remédio. As duas escolhas são legítimas. A decisão é compartilhada, construída na consulta, com a tomografia na mão e os objetivos do paciente na mesa.
Como é a cirurgia
Na grande maioria dos casos, a cirurgia é feita inteiramente por via endoscópica, pelas narinas, com vídeo e óticas, sem cortes externos. O objetivo não é “raspar” os seios da face, e sim abrir as passagens obstruídas e remover a mucosa doente, preservando as estruturas saudáveis, para que as cavidades voltem a ventilar e drenar. Quando há desvio de septo ou aumento dos cornetos, eles são corrigidos no mesmo procedimento.
A anestesia é geral. A cirurgia dura, em geral, entre 1 e 2 horas, dependendo de quantos seios são tratados, e a alta costuma acontecer no mesmo dia. O hospital é definido junto com o paciente, entre aqueles em que o cirurgião atua regularmente. Pode conhecer os hospitais onde o Dr. Luiz opera.
O que esperar da recuperação
A recuperação costuma ser tranquila, pela natureza conservadora da técnica. Em linhas gerais:
- Primeiros dias: pequena saída de sangue ou secreção sanguinolenta por cerca de 2 dias. Não há hematomas nem inchaço no rosto, porque não há cortes externos.
- Primeiras duas semanas: o nariz volta a obstruir por crostas e secreção, mesmo com a respiração já melhor logo após a cirurgia. Dor de cabeça e pressão na face são comuns, em geral mais intensas entre a primeira e a segunda semana, e costumam ser bem controladas com analgésicos.
- Terceira semana: um mau cheiro no nariz é frequente e faz parte da cicatrização.
- Afastamento: trabalho remoto, em geral, a partir de 2 dias; presencial entre 5 e 7 dias. Atividade física, esforço e exposição prolongada ao sol ficam suspensos por 30 dias, pelo risco de sangramento, que é a complicação mais comum e, ainda assim, rara.
- Cuidados que fazem diferença: não assoar o nariz nas primeiras semanas e lavar com soro de hora em hora enquanto estiver acordado. Na cirurgia dos seios da face a lavagem é ainda mais importante do que nas outras cirurgias nasais, porque é ela que limpa as cavidades operadas. Evitar comida e banho muito quentes.
- Retornos: o primeiro em até 1 semana. Nas consultas seguintes, a cicatrização é acompanhada por endoscopia e as crostas são removidas quando necessário.
Quem pretende organizar a cirurgia em um período de folga encontra um guia de planejamento para operar nas férias, com os prazos de cada cirurgia e o calendário de trás para frente.
Depois da cirurgia, a doença não desaparece. O tratamento é que passa a funcionar
Este é o ponto mais importante para alinhar expectativas. A cirurgia restabelece a ventilação e a drenagem dos seios da face. Ela não elimina a predisposição inflamatória ou alérgica que originou o problema. Por isso, a medicação tópica e a lavagem nasal continuam depois do procedimento, assim como o acompanhamento.
A diferença é estrutural: com as cavidades abertas, o soro e o medicamento chegam onde antes não chegavam, as crostas e a secreção têm por onde sair e as crises deixam de se repetir no ritmo anterior. Na polipose nasal, por ser uma doença inflamatória crônica da mucosa, novos pólipos podem se formar ao longo dos anos e exigir ajustes no tratamento. Em casos selecionados, de doença mais agressiva ou recorrente, existem hoje medicamentos imunobiológicos que agem diretamente no mecanismo da inflamação.
Em resumo
Sinusite que volta toda vez que o antibiótico acaba não é azar nem imunidade baixa. É um sinal de que existe algo impedindo os seios da face de funcionar, e esse algo tem nome: inflamação da mucosa, rinite não controlada, pólipos, desvio de septo, cornetos aumentados, um dente, a adenoide. A endoscopia nasal mostra como está a mucosa e os fatores obstrutivos, a tomografia mede a extensão, o tratamento clínico bem conduzido resolve boa parte dos casos, e a cirurgia endoscópica, sem cortes, com alta no mesmo dia, resolve os que o remédio sozinho não alcança.
Se você reconheceu o seu padrão neste artigo, o próximo passo não é mais uma receita. É um exame do nariz.
Se você mora fora de São Paulo, a avaliação inicial pode ser feita por teleconsulta, com os exames já realizados, e a viagem é organizada apenas se houver planejamento definido.
Explicação em vídeo
Dr. Luiz Castanheira explica — vídeo produzido pelo Hospital Paulista
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Perguntas Frequentes
Quantas sinusites por ano é considerado demais?
Quatro ou mais episódios de sinusite aguda em um ano, com melhora completa entre eles, caracterizam a sinusite aguda recorrente. Já sintomas que não desaparecem por mais de 12 semanas, mesmo com oscilações, apontam para sinusite crônica. Nos dois casos, o padrão de repetição por si só justifica uma avaliação com endoscopia nasal, porque indica que existe algo mantendo os seios da face mal ventilados.
Sinusite crônica tem cura sem cirurgia?
Muitas vezes, sim. Boa parte dos casos é controlada com tratamento clínico dirigido à causa: lavagem nasal, medicação tópica de uso contínuo e controle da rinite ou da alergia associada. A cirurgia entra quando esse tratamento, feito de forma correta e por tempo suficiente, não devolve a ventilação e a drenagem dos seios da face.
Por que o antibiótico melhora e a sinusite volta?
Porque o antibiótico trata a infecção do momento, mas não corrige o que está impedindo os seios da face de ventilar e drenar: inflamação persistente da mucosa, pólipos, desvio de septo, aumento dos cornetos, uma causa dentária ou, nas crianças, a adenoide. Enquanto esse fator permanece, a secreção volta a se acumular e a infecção se repete.
Tomar corticoide por conta própria resolve a crise?
Não é recomendado. Corticoide oral e antibiótico são remédios com indicação precisa e efeitos colaterais reais. Usados por conta própria e repetidas vezes, mascaram o quadro, atrasam o diagnóstico da causa e favorecem resistência bacteriana. A medicação da sinusite crônica é definida depois do exame do nariz, não antes.
Preciso fazer tomografia para saber se tenho sinusite crônica?
O diagnóstico começa pelo exame físico e pela endoscopia nasal, feita no consultório. A tomografia dos seios da face complementa a avaliação: mostra quais cavidades estão comprometidas e a anatomia do nariz, e é pedida de rotina quando a cirurgia está em avaliação, porque é ela que orienta o planejamento.
Como é a cirurgia de sinusite e quanto tempo leva para se recuperar?
Na grande maioria dos casos a cirurgia é endoscópica, feita pelas narinas, sem cortes externos, sob anestesia geral e com alta no mesmo dia. Em geral dura entre 1 e 2 horas, conforme o número de seios tratados. O retorno ao trabalho remoto costuma ser possível a partir de 2 dias e ao presencial entre 5 e 7 dias. Atividade física e sol prolongado ficam suspensos por 30 dias.
A sinusite pode voltar depois da cirurgia?
A cirurgia restabelece a ventilação e a drenagem dos seios da face, mas não elimina a predisposição inflamatória ou alérgica de base. Por isso o acompanhamento e a medicação tópica continuam depois do procedimento. A diferença é que, com as cavidades abertas, o tratamento clínico passa a funcionar e as crises deixam de se repetir no mesmo ritmo.